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Teatro Vivo

O Autor como Dramaturgo

Michael Frayn

Um dos atractivos da escrita para teatro, depois de se ter escrito romances, é o facto de o teatro nos circunscrever. Como sabe, em todas as formas de arte é preciso ter-se uma espécie de limitação dentro das quais se trabalha ... A dificuldade em escrever romances, segundo me parece, é a possibi-lidade de se fazer absolutamente tudo. A forma do romance é aberta: não há praticamente nada que não se possa fazer. Tem de acabar, acho eu, com palavras no papel, mas é tudo. No palco, estamos restringidos a palavras que são ditas por pessoas, portanto não podemos parar para fazer descrições ou relatos de ideias. Na realidade, não se pode relatar muito daquilo que se passa na cabeça das pessoas ... Penso que deixei de escrever romances por achar cada vez mais difícil determinar a minha própria voz. Um dos pra-zeres da escrita para teatro é o facto de se tratarem de vozes de outras pessoas ...

O que as pessoas muitas vezes não percebem é que escrever para o teatro é um trabalho de colaboração. As pessoas perguntam-nos de forma simpática se temos possibilidade de exercer algum controle ou se somos apenas brutalmente maltratados. Não se passa nada disso. Se as coisas funcionam, toda a gente (actores, encenador, cenógrafo) tem de contribuir de forma criativa. 0 texto é um elemento importante, mas é apenas um dos elementos. O autor nos ensaios tem muitas vezes a

sensação de que as coisas não estão a ser feitas como devia ser, mas também fica muitas vezes espantado ao ver os actores fazer coisas com o texto que ele próprio nunca tinha sequer imaginado. De repente há uma vida nova que está a ser insuflada por outra pessoa, ali onde antes não havia vida ou apenas uma parcela de vida.1

Por vezes sinto que as capacidades do público nem sempre são devidamente tidas em conta. Alguns espectadores chegam atrasados, é verdade, alguns comentam o espectáculo em voz alta e esperam pelas piadas para tossir. Mas o que é realmente surpreendente é ver que só muito poucos se comportam assim e que a maioria compreende as convenções e está disposta a aceitá-las. Encontrar dois, ou cinco, ou dez bons actores para representar uma peça é difícil; encontrar duzentas, ou quinhentas ou mil pessoas para a ir ver, noite após noite, é um milagre ... Fazer parte de um público bom é divertido ... Pelo que me é dado ver, todas estas peças são ten-tativas de mostrar qualquer coisa sobre o mundo, não para o transformar ou para pro-mover qualquer ideia específica sobre ele. Não quer dizer que nelas não existam ideias. De facto, são todas, de uma maneira ou doutra (ao que me parece), sobre o modo como impomos as nossas ideias ao mundo que nos rodeia.

Algumas destas personagens entraram na minha cabeça sem terem sido convidadas e contaram-me a sua história mal se sentaram.... Outras fui eu que as tive de ir buscar à força à rua. Não queriam falar. Tive de as iludir, dizendo-lhes que conhecia a história toda e confrontá-las com as confissões feitas pelos cúmplices. Houve algumas que tive de levar para o interrogatório, para uma sala à prova de som, e mostrar-lhes as manchas de sangue nas paredes. Estaria eu a revelar as provas ou a a criá-las? Estaria o mundo a contar-me como era ou estaria eu a contar isso ao mundo? É impossível responder à pergunta, mesmo em teoria - porque se tratava evidentemente apenas de uma forma do verdadeiro dilema sobre o qual estou a escrever.

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